Evento da Terra Firme se propõe a promover o desestímulo ao consumismo exagerado e a oferecer às crianças a oportunidade de ter novos brinquedos e livros sem custos financeiros, exercitando o desapego a objetos.

Na última sexta feira, 13 de abril, a Escola Terra Firme realizou a Feira da Troca. O objetivo é promover a interatividade e a capacidade argumentativa, importante em situações de negociação, bem como incentivar a reflexão sobre as formas de adquirir objetos, promovendo o consumo consciente, exercitando o sentimento de desapego e auxiliando o desenvolvimento da noção de atribuição de valores. Para isso, as crianças trazem de casa coisas para trocar com outras crianças e têm autonomia para negociar as trocas. Todos se envolvem e saem da Feira com novos brinquedos e/ou livros, que ocuparão o espaço deixado pelos objetos que foram trocados e que, certamente, estarão fazendo a alegria de outras crianças em outros lares.

Segundo Sandra Cornelsen, idealizadora e diretora da escola, a proposta é promover uma conscientização do ato de consumo, o que exige necessariamente uma crítica à forma de vida consumista, que tem causado graves problemas ecológicos. “A escola se preocupa com esse excesso de consumo e esse excesso se contrapõe ao meio ambiente”, explica.

Na contramão do consumo – Francis Juliana Fontana é mãe do aluno Miguel, do Jardim II, e psicóloga clínica, mestre e doutora em Filosofia pela PUC/PR (Pontifícia Universidade Católica/Paraná). Ela apoia a filosofia pedagógica da escola e explica que a Feira da Troca traz benefícios para a criança, não apenas no que diz respeito ao incentivo para pensar criticamente o consumismo, mas também no entendimento da dinâmica da formação afetiva. Na sua compreensão, além de falar do consumo e trazer um problema social, a iniciativa oferece também outras contribuições importantes. “Essa ideia da feira mostra uma forma de ir na contramão do consumismo, e isso é fantástico, porque se confronta com o que a criança vê na mídia. Mas, vai além, pois a criança vai compreendendo a função da troca de coisas e entende mais facilmente outras formas de troca, como as de afeto e de amor, podendo pensar como se dá o processo de amizade, na qual há, fundamentalmente, trocas e compartilhamentos”, diz.

Francis afirma que estamos vivendo numa era marcada pelo excesso de consumo e é muito importante estimular ações como a Feira da Troca. “Há muitos casos clínicos no consultório marcados pelo excesso de consumo e a maior parte dos casos de hiperatividade que atendemos tem esse excesso como característica. A publicidade diz seguidamente para consumir, explorando incessantemente objetos de desejo, não dando tempo para refletir, num verdadeiro bombardeio, tanto de objetos como de jogos”. Para ela, nesse cenário, a criança está o tempo todo em contato com o estímulo, seja de brinquedos, jogos, muitas coisas novas, e isso só aumenta a hiperatividade, pois, psicologicamente, a criança não aprende a ter limites, pois tudo é possível.

Menos individualismo – Para a coordenadora do Fundamental I, Rosane Marçal, a feira da troca já começa em casa, ao separar o que será trazido para a escola, identificando aquilo que não está mais sendo utilizado. “A criança toma consciência que tem coisas que não usa e, aí, vem a preparação de se organizar no espaço da feira, o que também é um aprendizado. Na Terra Firme, o consumo é trabalhado no dia a dia, de formas diferentes, e a consequência disso, visivelmente, é que nossos alunos e alunas não dão tanta importância para o brinquedo mas para as brincadeiras”, explica.

Lucas Ferreira Souza é o pai do Thor, do Jardim III. É o primeiro ano deles na escola e a primeira vez que participam de uma feira de trocas de brinquedos. “A iniciativa da Terra Firme é importante por vários fatores. Além de confrontar o instinto de apego aos objetos, incentiva a interação entre crianças, pais e mães, e o desenvolvimento enquanto pessoa dentro da sociedade, incentivando a criança a ser menos individualista”, fala.

Percepção de valor – Carolina Doege, mãe da Clara, do Jardim I, veio para a Terra Firme porque queria uma escola que tivesse, além da Psicomotricidade Relacional, a filosofia do afeto, com uma linguagem menos focada em competição e mais no caminho que a criança percorre. Fernando Doege, pai da Clara, diz que a Feira da Troca corresponde às expectativas que tinham ao escolher a Terra Firme. “Estávamos apreensivos para saber como ela ia se relacionar com tanta liberdade, se ia conseguir trocar A por B e essa experiência está sendo muito legal”, diz.

Carolina diz que, com a feira, Clara aprende a dividir, a lidar com a decepção e a ver que trocou um brinquedo que não estará mais lá. É importante lidar com esta frustração. “É bom saber trocar, dividir, compreender a questão de percepção de valor.” O pai afirma que, quando somos adultos, os objetos têm um valor financeiro, mas para as crianças isso se dá de forma diferente. “Aqui, a percepção é de quanto o objeto é importante para elas, o quanto pode se desapegar e querer outro objeto, mas isso sem saber se está ganhando ou perdendo de forma financeira”.

Entendendo pesos e medidas – Rafael Camargo, pai do Lucas do 4º ano já acompanha há alguns anos a Feira da Troca e nesta trouxe alguns desenhos dele e do Lucas para trocar. Rafael sente que é uma oportunidade de ensinar para as crianças quanto ao valor afetivo dos objetos e que alguns objetos que têm valor para mim podem não ter o mesmo valor para o outro. Para ele, isso significa entender pesos e medidas. “Uma das características da escola é trazer esta conscientização em vários momentos e, na Feira, isso fica mais evidente. Seria excelente se essas iniciativas reverberassem na sociedade, como um ‘efeito borboleta’, mostrando a força desses pequenos feitos”, afirma. Já o Lucas acha a feira muito legal, educativa e muito movimentada. Fica feliz de chegar em casa em ver coisas diferentes, como aconteceu com o boneco aranha que trocou quando tinha 4 anos.

Os pais de Newton Alle, Ben e Lupe, já são veteranos na escola, pois o primeiro filho deles estudou na Terra em 1997. Newton, que cursa o 5º ano, se acostumou com a filosofia da Feira e tem trazido livros para trocar. “Gosto muito de livros e esses que trouxe já li várias vezes. Os que eu não trocar na feira serão doados para a biblioteca da escola”, diz. Newton tem a sensação de que este ano a feira ficou maior. “O mais legal é que as pessoas ficam felizes de poder ter coisas diferentes e legais e a gente também. Uma hora a pessoa vai usar, depois pode trocar novamente”, entende.

Arte do cartaz: Adriano de Faria
Texto: Karina Ernsen
Fotos: Luiz Geremias e Alice Alves

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